Museus em parceria

As pesquisas de docentes do MAE têm resultado na criação de museus regionais, graças ao apoio das prefeituras locais, onde são expostos os acervos recuperados das escavações arqueológicas. Exemplo disso são o Museu Municipal de Arqueologia de Perdizes, no estado de Minas Gerais, e o Museu Municipal de Arqueologia de Monte Alto, no estado de São Paulo.

Centro Cultural de Perdizes. Foto: Melina Pissolato, 2019

Museu Municipal de Arqueologia de Perdizes/MG

Rua João Luciano Barbosa s/n, CEP 38170-000, Perdizes, MG. Entrada gratuita.

Inaugurado em Julho de 1986, este museu é resultado de convênios assinados entre a Universidade de São Paulo (USP), intermediada pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e a Prefeitura Municipal de Perdizes/MG. Possui sede própria na Praça principal da cidade, antiga sede da Prefeitura.

Atual exposição“História de longa duração no Vale do Paranaíba, margem mineira” (os paineis explicativos estão em português e inglês)

 

Todo o acervo exposto no Museu de Perdizes foi coletado de maneira sistemática no âmbito do Projeto Quebra-Anzol/MG, coordenado pela Profª Drª Márcia Angelina Alves, Livre Docente em Arqueologia brasileira. Este projeto atua na região desde 1980 e já possibilitou a elaboração de oito Mestrados, dois Doutorados e parte de uma Livre-Docência junto à USP. As pesquisas desenvolvidas nos sítios a céu aberto, em interflúvios da bacia do rio Paranaíba, e em especial do Quebra-Anzol, resultaram na identificação e evidenciação de três horizontes sócio-culturais:

  • caçadores-coletores (predominantemente no curso médio do rio Paranaíba), com datações absolutas entre 7300 anos A.P. e 1800 anos A.P.;
  • agricultores-ceramistas pré-coloniais (predominantemente no Alto Paranaíba, concentrados no Vale do rio Quebra-Anzol), com datações absolutas entre 1830 anos A.P. e 400 anos A.P.;
  • agricultores-ceramistas do período colonial e pós-colonial (idem), séculos XVII ao XIX.

A cultura material dos caçadores-coletores é representada por indústria lítica, cujo artefato guia é o plano convexo (lesma), fato que tecnologicamente converge com a Tradição Itaparica. A cultura material dos agricultores-ceramistas pré-coloniais é representada por uma cerâmica não decorada, típica da Tradição Aratu-Sapucaí: urnas periformes sem decoração (com funções de enterramentos primários e como urnas-silo), pequenos vasos geminados (indicando as polaridades duais dos povos Macro-Jê), vasilhames ovóides e trapezoidais com as bases convexas, fusos, cuscuzeiros. Particularmente, o Museu de Arqueologia de Perdizes conta também com uma coleção de tembetás. Por fim, a cultura material de povos do período colonial e pós-colonial consta com a inovações tecnológicas: vasos com bases planas e aplicação de incisões em três linhas oblíquas ou semi-oblíquas como marcador de identidade étnica/cultural do povo Kayapó Meridional.

 

Museu de Arqueologia de Monte Alto. Foto: Márcia Angelina Alves, 1999

Museu Municipal de Arqueologia de Monte Alto/SP

Praça do Centenário s/n, CEP 15910-000, Monte Alto, SP. Entrada gratuita.

Iaugurado em Abril de 1999, este museu é resultado de convênios assinados entre a Universidade de São Paulo (USP), intermediada pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e a Prefeitura Municipal de Monte Alto/SP. Possui sede própria no Centro Cultural de Monte Alto/SP.

Museu de sítio: Água Limpa, com ocupações de 1500 anos A.P. até o século XVI.

Atual exposição“Povoamento pré-histórico no vale do Turvo/SP” (os paineis explicativos estão em português e inglês)

Todo o acervo exposto no Museu de Monte Alto foi coletado de maneira sistemática no âmbito do Projeto Turvo/SP, coordenado pela Profª Drª Márcia Angelina Alves, Livre Docente em Arqueologia brasileira. Este projeto atua na região desde 1993 e já possibilitou a elaboração de dois Mestrados, dois Doutorados (um em Arqueologia e outro em Física) e parte de uma Livre-Docência. O sítio Água Limpa, a céu aberto, localizado no bairro rural homônimo, distante sete quilômetros da sede municipal, está depositado em um interflúvio circundado pelos córregos Água Limpa e Santa Luzia. O sítio consta de três zonas de escavação sistemática, estando duas em processo de pesquisa. As escavações desenvolvidas no Água Limpa resultaram na identificação e evidenciação de dois horizontes sócio-culturais:

  • agricultores-ceramistas pré-coloniais, com datações absolutas do século V ao século XVI, com alguns artefatos guia da tradição Aratu-Sapucaí: pequenos vasos duplos (indicando as polaridades dos povos Macro-Jê), fusos, cuscuzeiros e vasilhames com bases convexas, mas sem a presença de urnas periformes; porém, o padrão de sepultamento primário – em uma área específica, no perímetro da aldeia mas fora das habitações -, é representado por uma área de sepultamentos primários diretamente na terra, estando alguns enterramentos com bens funerários indicando ritos de acordo com a idade e sexo. Entre as inovações da cultura material representada no museu, é possível elencar a cerâmica com brunidura, a presença de pintura monocromática na cor vermelha, sem engobo, e a ocorrência de carimbo cerâmico com padrão que remete à identidade étnica, além de artefatos líticos fálicos, infantis e adultos.
  • agricultores-ceramistas do período colonial, com inovação tecnológica da adoção de bases planas e ausência da pintura monocromática na cor vermelha. Século XVII.

Por fim, a cultura material de povos do período pré-colonial e colonial converge para a sua identificação como Kaingang, do centro-Norte do estado de São Paulo.